Obrigada Por Me Ter Escutado

Domingo, à hora do almoço, entro, com a minha filha, num dos meus restaurantes preferidos. Gosto de ambientes acolhedores, sossegados e com as mesas devidamente afastadas umas das outras, possibilitando, assim, uma boa conversa com a privacidade necessária. A mesa tinha sido marcada previamente mas, como fomos as primeiras a chegar, houve possibilidade de escolha. O empregado, homem dos sete ofícios, que conheci no meu local de trabalho, abordou-nos gentilmente e, provavelmente, atendendo à idade da minha filha, pergunta se queremos ficar perto da televisão.

Em casa, à hora das refeições, televisão é algo que não existe e o interesse em ir ao restaurante é a possibilidade que este nos dá de estarmos calmamente a conversar sem necessidade de me levantar da mesa, vezes sem conta, porque é preciso ir buscar mais alguma coisa, até que se acabe de comer. Por isso, escolhemos a mesa redondinha, mais aconchegadinha, tendo a minha filha ficado virada para as restantes mesas e eu para a cozinha, onde pude observar, com interesse, a elevada chama que aquecia a frigideira, habilmente manuseada pela cozinheira.

Fomos comendo e conversando. Demorámos cerca de duas horas. Já quase no final, a minha filha fez-me virar para trás para que pudesse observar a mesa onde várias pessoas estavam sentadas não em amena cavaqueira umas com as outras mas literalmente coladas, cada uma per si, ao respetivo telemóvel – cenário típico do problema de comunicação, desde sempre, entre os seres humanos: pessoas aparentemente acompanhadas que vivem, todavia, em estado de permanente solidão.

No relacionamento com minha filha, jovem adolescente, tenho observado que a convivência é sempre amena e fluida quando a escuto sem interrupção e com verdadeiro interesse se, por motivos de cansaço ou pressa, a interrompo, o mais certo é o caldo estar entornado 🙂

Iniciei a minha vida profissional com cerca de 24 anos de idade, como assistente social, onde pude observar e descobrir que uma das maiores necessidades do ser humano é ter alguém que os escute, com delicadeza e respeito, sem críticas. Falar e ser escutado alivia a alma e o coração – evita acumulação desnecessária de emoções negativas nocivas à nossa saúde e bem estar.

Durante três semanas, atendi, várias vezes, uma senhora, filha de uma doente, internada no Hospital. Por várias vezes, vi esta mesma senhora esperar, por tempo indeterminado, pelo médico que lhe trouxesse notícias sobre o estado de saúde da mãe.

Não gosto de falar através do vidro, por isso, quando a mãe desta senhora teve alta, convidei esta senhora a entrar na pequena secretaria. Contou-me que é professora em Lisboa, viúva, com dois filhos. Recentemente, aceitou um novo desafio que ainda não tinha podido abraçar devido às constantes deslocações a Portalegre, causadas pelo internamento da mãe. Sendo necessária e útil em várias frentes confessou que às vezes não sabia bem o que fazer e que tinha sido um tempo muito difícil. Terminou proferindo: Obrigada por me ter escutado.

Nunca sabemos quem temos à nossa frente, qual a sua história, quais os desafios que enfrenta. Tal só é possível através da disponibilização de tempo do nosso tempo para escutar – ouvir atentamente, prestar atenção àquilo que o outro diz.

Na verdade, ao longo da minha vida aprendi e continuo a aprender, onde e quando menos espero, que escutar com atenção e simpatia é um dos tesouros que “sensibiliza aquele que fala e cria nele o estado afetivo e favorável à estruturação de relações humanas cordiais”.

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