O Julgamento No Quotidiano

Segunda-feira, passa alguns minutos das 16 horas. A hora de saída é ás 17h, para alguns. Aqui, no serviço de medicina do Hospital, o trabalho ocorre 24 sobre 24 horas.

No pequeno gabinete de serviço administrativo, onde me encontro acompanhada pela minha colega, entram dois jovens médicos – um a acompanhar, outro para tratar dos procedimentos administrativos afetos à alta de um doente internado. A dada altura, entre os dois, ocorre um pequeno diálogo: “Temos que pôr esta gente a trabalhar”. Confesso que ouvi e desapeguei – claramente, não me identifiquei nem me identifico com estas palavras, com este tipo de comentário.

Alguns minutos depois, fico sozinha com o médico responsável pela alta – cuidadosamente, vira-se para mim e diz: “o que estávamos a dizer não era para vocês”, ao qual respondi, serenamente: quem se sente bem consigo próprio não se deixa afetar por comentários.

Decidi pegar neste momento dado que me parece ser ilustrativo do permanente julgamento que se vive, dia após dia.

Todos supomos sem perguntar. Todos crescemos debaixo do julgamento alheio – de um estado mental geral estagnado.

Desde crianças que nos apontam o dedo. Em geral, tudo aquilo que é natural e saudável para a criança é alvo de julgamento. A espontaneidade e o contacto com os sentimentos são alvo do processo de condicionamento da sociedade. Mentes estagnadas condicionam mentes estagnadas – o cenário perfeito e a razão porque se vive em sociedades onde o julgamento de nós próprios e dos outros está permanentemente presente – que perda de tempo!!!

Estudei em Coimbra, nos anos 90. No 4.º ano da licenciatura estagiei no Instituto de Reinserção Social, na área do direito penal – crime. Por alguma razão que me transcende, dos casos observados, maioritariamente, as respectivas profissões estavam relacionadas com a área da construção civil… Qual o resultado?…

Quando as obras referentes à colocação do gás canalizado começaram em Coimbra… 🙂 Adivinhem 🙂 … Qual era a minha tendência? – Julgar que qualquer um dos homens desta obra poderia ser, perfeitamente, um “criminoso”.

Sem treino a observar a realidade e com muito treino a pensar que as coisas são como nós pensamos e/ou supomos, muitas vezes, longe da realidade, facilmente apontamos o dedo e definimos as pessoas segundo o nosso entendimento.

Interessar-nos verdadeiramente pelas pessoas é, na verdade, fundamental.

Julgar que o trabalho administrativo é desenvolvido por pessoas com capacidades menores que eu ou que os trabalhadores do gás são todos criminosos revela imaturidade e desconhecimento das leis universais – a vida não é linear, a evolução ocorre em ciclos e em espiral: adquiridas as aprendizagens inerentes a cada ciclo, sobe-se ao ciclo acima.

Se ao invés de rotularmos as pessoas “perdêssemos” algum do nosso tempo a conhecê-las e não a inventar atributos, utilizaríamos o nosso precioso tempo de forma mais saudável, sem comportamentos e comentários destrutivos sobre os outros.

São aprendizagens que carecem de treino…recuos e avanços fazem parte do processo, afinal, as aprendizagens e o treino que nos é dado desde crianças é bem diferente 🙂

“Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses” – Osho

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