O Estado Amoroso Do Ser E Aceitação

C está pronta para a atuação em Castelo de Vide. O telemóvel toca, a boleia chegou. Descemos as escadas desde o 4.º andar, o elevador anda tão devagar que é mais motivador descer as escadas.

Tal como combinado, o bébé D fica ao meu cuidado por algumas horas.

Coloco-o no carrinho e, aí vamos nós, estrada fora, até à pastelaria, onde a tia se encontra à nossa espera.

Sentada com o bébé ao meu colo e a tia à minha frente, os cafés e as queijadas pedidas são postas sobre a mesa.

O bébé já come e, por isso, parto em pedacinhos pequenos um bocadinho da minha queijada que disponho no pires à nossa frente. Serenamente e focado no momento presente o bébé D vai saboreando o repasto.

Da nossa mesa, uma mulher aproxima-se. O que se passou a seguir fez-me observar o comum comportamento dos adultos com as crianças. Apegados a comportamentos sociais comuns e ao ego – do que me satisfaz a mim e não ao outro – ao invés de permitirem que a criança se mantivesse calmamente a comer, desfocados do momento presente, sobressai a necessidade de desviar a atenção da criança do que ela realmente estava a fazer com alegria e paz para satisfazer o desejo egoico de chamar a atenção do bébé para si próprio, inclusivé, manifestando vontade de lhe apertar as bochechas – valeu o facto de ter sido apenas manifestado verbalmente!

As conversas são como as cerejas e, tal manifestação, gerou uma história contada pela tia. O meu sobrinho mais velho era antipático quando as pessoas lhe mexiam na cabeça e os pais irritavam-se com ele pela antipatia demonstrada pelas pessoas que, egoicamente, sem atenderem à vontade da criança, seguem o impulso de satisfazerem as suas necessidades, manifestando pleno desrespeito pela criança, que claramente se sente incomodada com o acto.

Raparem: a criança é invadida, a invasão gera desconforto e os pais, apegados a comportamentos socialmente aceites, em desrespeito da unicidade da criança, ainda se irritam com ela, ao invés de colocarem um travão em comportamentos egoicos.

E, assim, crescemos todos, eu inclusivé, a sermos constantemente desrespeitados e despeitados.

A falta de atenção no momento presente, o constante desvio daquilo que nos faz sentir alegria e paz, desde tenra idade, provoca a não aceitação de nós mesmos e a consequente não aceitação dos outros.

Perceber que nos desviaram do caminho da aceitação, embora esteja ao alcance de todos, para muitos está longe de ser percepcionado. Se desde criança eu só sou aceite se tiver determinados comportamentos então, eu só aceito os outros se agirem de acordo com estes mesmos comportamentos. A minha consciência permanece fechada e a minha tendência é fazer aos outros aquilo que me fizeram a mim, sem sequer pensar se isso tem realmente sentido e contribui para a harmonia do Todo.

A não aceitação da paz e da alegria do outro desvia-nos do estado amoroso do ser.

O conflito é permanente. Sem recursos, capacidade física e maturidade mental a criança só tem a hipótese de ser alvo dos devaneios dos demais. Em conflito consigo mesma, em conflito com o exterior, em conflito com os outros. E, assim, ao invés de vivenciarmos o nosso estado natural de partilha, amor e alegria, caímos no estado bélico de competição e comparação, gerando medos e inseguranças, que nos colocam em tensão permanente, na maioria das vezes, de forma despercebida para muitos, já que julgam que este é o estado natural do ser humano e a forma “correta” de viver a vida.

Tudo isto provoca a falta de paz no mundo. Tão desejada por todos mas, ainda longe de ser conseguida.

Na verdade, a paz no mundo instala-se quando todos os seres humanos aceitarem que a paz começa dentro de si e, consequentemente, se espalha ao seu redor.

É fácil descobrir o que nos dá paz e alegria interior? É fácil sentir paz e alegria interior?

Deveria ser super simples se o encaminhamento da criança a adulto fosse baseado no respeito pela sua unicidade, alegria e paz interior.

Dado que a realidade é outra, encontrar a paz e a alegria interior requer humildade, aceitação, coragem e muito, muito treino.

Aprendizagens atrás de aprendizagens surgem, passo a passo, com avanços e recuos, a luz do amor e da alegria desponta.

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