A Tua Criança Interior

Há uns meses atrás, a minha filha, de 12 anos de idade, disse-me que ainda era uma criança.

Inadvertidamente, respondi-lhe que ela já não era nenhuma criança.

A verdade, é que a minha filha tem toda a razão. Cada adulto transporta, dentro de si mesmo, o adolescente e a criança que já foi.

Todos nascemos com o direito a ter uma infância onde a alegria, a criatividade e a espontaneidade fluam naturalmente.

Onde se seja livre o suficiente para expressar, sem medo, os nossos estados de espírito: tristeza, revolta ou alegria.

Onde se cresça em segurança e onde se encontre espaço para encontrar e descobrir a essência única e genuína de cada ser humano.

Quando isto acontecer a todos o mundo estará equilibrado e harmonioso.

Por enquanto, muitos foram feridos emocionalmente na infância, vivenciando emoções dolorosas: solidão, abandono, revolta, ressentimento, frieza, indiferença e abusos vários.

O amor que não se sentiu de forma plena, de forma persistente ou ocasional, gera sentimentos de não merecimento, insignificância, incapacidade e desamor.

Os bloqueios instalam-se:

  • a criança que cresceu envolvida numa disciplina rígida e que foi severamente criticada, critica-se incessantemente,
  • a criança que só se sentiu amada quando fazia o que os outros queriam, deixa de ser ela própria e molda o seu comportamento e atitudes para agradar aos outros,
  • a desconfiança instala-se quando a criança registou a dualidade na figura de autoridade – que vacilava entre a docilidade e a insensibilidade,
  • os abusos físicos ou verbais levam a criança a testar os outros, através da sua força e/ou a bloquear o acesso aos sentimentos.

 

Para além da infância que se vivenciou nesta vida podemos, também, entrar no plano espiritual.

Sendo cada vida rica em aprendizagens para o desenvolvimento da alma, há quem defenda que o nosso passado originou a escolha dos nossos pais e as nossas condições de nascimento presentes.

O que importa perceber é que independentemente do passado e das experiências vividas, existe a liberdade de criar um novo padrão.

Aprender a amar a nossa criança interior é resgatar a espontaneidade, a leveza, a liberdade, a paz, a fé, a coragem, a inocência que a nossa essência abraça dentro de si.

É trazer a resposta a tantos porquês e a compreensão de um sentido maior de existir, da nossa missão de vida.

 

Perceber e aceitar que há mágoa e dor instalada na nossa criança interior é o primeiro grande passo para nos libertarmos do processo de vitimização, que culpa tudo e todos, inclusivé a nós próprios.

O que é que sabes a respeito da infância dos teus pais?

Quais foram os medo, sentimentos, tristezas e padrões castradores que os teus pais vivenciaram na infância?

Só é possível amar e aceitar os outros quando amamos e aceitamos a nossa criança interior.

A tua relação com a tua criança interior é a relação mais importante de toda a criação.

É a tua criança interior que tem todas as memórias.

Está na hora de lhe dares atenção, de admitir que ela existe dentro de ti.

Toda a mágoa e dor estão acumuladas na tua criança interior. Está na hora de a pegares ao colo e de cuidares dela com bondade, gentileza, carinho e paciência.

Ajuda a tua criança interior a libertar-se de todas as memórias castradoras e sente a leveza e a harmonia que se vão instalando dentro de ti.

Sim , é preciso ter coragem e disposição para reencontrar a criança ferida, curá-la e amá-la incondicionalmente.

Por mais confiante que uma mulher seja, há sempre uma menina meiga que precisa de apoio; por mais confiante que o homem seja, há sempre um menino que anseia por colo e afeto.

Afinal, tudo neste mundo só se desenvolve, em pleno, com amor e carinho, seja o ser humano, a flor, o animal, ou a árvore, enfim, tudo o que respira.

É importante dizeres a ti mesmo, ou, ainda melhor, à tua criança interior que ela é merecedora de receber amor, que é merecedora de receber o melhor, que é criativa, esperta, inteligente e maravilhosa.

Pergunta-lhe, todos os dias, o que podes fazer para que ela fique feliz?

O que gostavas de fazer quando eras pequeno?

Andar de baloiço? Volta a baloiçar.

Pisar as folhas do jardim? Volta a pisar.

Volta a sentir a vida genuinamente.

Se recusares assumir a responsabilidade de cuidares da tua criança interior isso significa que estás preso no mundo do ressentimento. Há algo para perdoar…

Todas estas palavras te parecem estranhas ou, até mesmo, ridículas?

Está tudo bem. Aceita apenas o que para ti é aceitável, aqui e agora.

A boa notícia é que se leste este texto até ao fim, embora possas ter um sentimento contrário, é que há algo em ti que despertou para que a tua mudança interior comece a acontecer.

Se não sabes como fazê-lo, diz para ti: “Quero aprender a amar a minha criança interior, quero aprender”. O Universo, ou para alguns Deus, dar-te-á a resposta de como podes fazê-lo.

 

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